domingo, 14 de junho de 2009

AS QUATRO MANHÃS



PRIMEIRA MANHÃ

Quando eu cheguei devia ser tarde,

já tinham dividido tudo

pelos outros e seus descendentes.

Só havia o céu por cima dos telhados

lá muito alto

para eu respirar e sonhar.

Tudo o mais

cá em baixo

era dos outros e seus descendenes.

A Terra inteira

e o mar

e o ar

tudo medido a régua e compasso

pelos outros e seus descendentes.

No mundo inteiro

não faltava ninguém

depois dos outros e seus descendentes.

A terra inteira

era estrangeira

mais este pedaço onde nasci.

Não me deixaram nada

nada mais do que o sonhar.

Eu que sonhasse!

E eu que amo a vida mais do que o sonho

e o sonho e a vida juntos

mais do que ambos separados

e que não sei sonhar senão a vida

e que não sei viver senão o sonho

hei - de ficar aqui

entre os outros e seus descendentes?

Eram meus os caminhos

os caminhos murados

só os caminhos eram meus.

Só tinham fim os caminhos

ao começar outros caminhos.

As portas fechadas

as janelas cerradas

só os caminhos eram meus.

A minha viagem não tinha fim

no fim de todos os caminhos.

O fim que tinha era outro

bem perto de mim

em todos os caminhos.

Bem perto de mim andava

aquele que eu buscava,

aquele que não era nenhum dos outros e seus descendentes,

alguém cuja pessoa era eu

que não me achava.

Apenas uma voz me falava e sabia

que eu não era nenhum dos outros e seus descendentes.

E esse que a voz sabia que eu o era

me levava pelos caminhos

os meus olhos primeiro do que eu

e o coração no peito a contar.

A voz sabia - o bem

e eu para me encontrar.

Também vi pelos caminhos

lembro - me de quantos

também como eu

à procura de tantos como eles.

Perdidos vão

perdidos? não!

não achados

não achados ainda.

Perdidos não estão

vão perdidos por se acharem,

vão mortos por se verem a si próprios

como são.

Levam o sonho no ar

e o coração a contar

as idades que é preciso ter

até cada um ser

aquele que vai em si.

Nascer é vir a este mundo

não é ainda chegar a ser.

Nascer é o feito dos outros.

O nosso é depois de nascer

até chegarmos a ser

aquele que o sonho nos faz.

Já sei de cor os caminhos

já sei o que vale a promessa

já vejo perfeito no sonho

o que me há - de a vida imitar.

Mais além

e o sonho e a vida

libertar - se - ão um do outro em mim! -ALMADA NEGREIROS