Não se trata sómente de uma ferida
quesupura desejo e que sossega
àqueles que a lambem reverentes
ou aos inquietos que lhe tocam
sem inquietação religiosa
como uma prospecção do seu costume,
como quotidiana tarefa conjugal;
ou aos que se despenham, consumidos
na sua concavidade incandescente
depois de terem saciado a fome de besta
que exige a sua ração de carne crua.
Não consiste sómente nesse triângulo
de pincelada negra entre as coxas
contra um fundo de cálida brancura que se oferece.
Não é tão fácil de reduzi-lo
ao único argumento
que se escondepor detrás dos trabalhos amorosos
e das efusões da literatura.
O corpo não supõe um artefacto
de simples emngenharia corporal;
também é a tarefa do espírito
que se desdobra sábio sobre o tempo.
A arca que contém memoriosa
a alquimia milenária da espécie.
Assim os escravos do desejo
mesmo sem o suspeitar, quando lambem
a ferida mais antiga, quando apalpam
a rósea cicatriz de brilho aquático
ou quase se dissolvem na sua fenda,
voltam a pronunciar um sortilégio,
um esconjuro ancestral.
Dirigimo -nos,
sonâmbulos com rumo para a noite,
viajamos outra vez até à semente
para observar radiantes como cresce
a flor de carne aberta.
A pretérita flor.
Húmida flor atávica.
A origem do mundo.
